terça-feira, julho 01, 2008

25 anos


1

Nesse dia especificamente estranho
me sinto como se houvesse dormido mil anos.
Meus olhos pesados como pedra:
o corpo dormente como um rio manso.
Todos falam incessantemente:
me falam de suas vidas,
das vidas alheias, de seus projetos;
eu não quero saber.
Tuas palavras não me servem,
teu choro não me comove.
2
Todos crescem, casam, criam,
amam e traem. Vão e vem.
Ora estão mal, ora estão bem,
outros sempre mal.
As pessoas são sempre as mesmas,
palavras, olhares e, perfumes.
Ruas são alargadas, novas casas,
novos seres humanos.
3
Mas o que há de realmente novo?
Depois de tanto tempo,
é como se a cada manhã despertasse
não do sono de uma noite,
mas dos sonhos de um matusalém.
Lançaram um novo imposto,
um novo carro, um novo satélite.
4
Estou alheio a tudo e todos.
Minha amiga teve um filho,
meu amigo se casou,
outro alguém arranjou emprego,
e agora só falam disso.
Nós conversávamos sobre história,
sobre histórias, idéias e músicas.
Conversávamos sobre o futuro:
o futuro deles chegou.
Não é como esperávamos,
mas eles parecem felizes
Eu só queria viver um dia de cada vez:
não pensar sempre nas contas
do quinto dia útil de cada mês.
5
Eu só preciso de três certezas:
a primeira de que tenho amigos,
não amigos de ocasião
mas sim aqueles leais e justos,
que jogarão baralho comigo
nas praças de nossas juventudes
(que serão então de outros jovens)
daqui a muitos anos.
A segunda certeza de que preciso
é a certeza de que me amas,
de que não me beijas por obrigação.
Quero saber se sentirás sempre
aflição com o meu atraso
e saudade do meu peito
(mesmo velho e carcomido)
mesmo quando distante
alguns minutos apenas.
A última certeza é a de estar vivo.
Porque viverei enquanto encontar prazer
na comida, na bebida,
em contemplar a lua
e me banhar no tímido sol
das manhãs de inverno que tanto adorei.
Viverei enquanto houverem acontecimentos
que eu queira contar aos amigos.
Enquanto houver riso, viverei.
Enquanto puder te olhar, viverei.
Sentir o teu toque na minha pele
e contemplar teus olhos grandes, infinitos,
disso não abro mão.
6
Hoje sou mais velho
do que jamais fui.
Esta sensação estará presente pra sempre.
Mas enquanto eu puder viver,
seguirei vivendo...


(tenho 25 anos de sonho e de sangue; e de América do Sul, por conta desse destino o tango argentino me cai bem melhor que o blues...)

Um comentário:

La musa enferma disse...

Pero te miras bien, en esa foto, esos 25 años de algo serán también, de tantas cosas infinitas, cuántas palabras dichas, cuánta cerveza después, cuántos amores después... que tu año 26, sean otras diez mil cosas. BEIJINHOS MEU LEANDRO SEMPRE LINDO... vc escreve muito bem, acho que cada vez melhor... beijinhos... até.